![Marcus Tullius Cícero](http://www.citador.pt/images/autorid00104.jpg)
Saber Terminar uma Amizade Indesejável
Sucede, também, como por calamidade, que algumas vezes é necessário
romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos sábios às
ligações vulgares. Muitas vezes quando os vícios se revelam num homem,
os seus amigos são as suas vítimas como todos os outros: contudo é sobre
eles que recai a vergonha. É preciso, pois, desligar-se de tais
amizades —, afrouxando o laço pouco a pouco e, como ouvi dizer a Catão, é
necessário descoser antes que despedaçar, a menos que se não haja
produzido um escândalo de tal modo intolerável, que não fosse nem justo
nem honesto, nem mesmo possível, deixar de romper imediatamente.
Mas se o carácter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas
vezes; se algum dissentimento político separar dois amigos (não falo
mais, repito-o, das amizades dos sábios, mas das afeições vulgares), é
preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, não a substituir logo
pelo ódio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com
aquele que se amou por muito tempo.
(...) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de
ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pareça antes
extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela não se transforme
em ódio violento, que traz sempre consigo as querelas, as injúrias, os
ultrajes. Por nós, suportemos esses ultrajes quanto forem suportáveis e
prestemos esta homenagem a uma antiga amizade, de modo que a culpa caiba
a quem os faz e não àquele que os sofre.
Mas o único meio de evitar e prevenir todos os aborrecimentos é não dar a
nossa afeição nem muito depressa, nem a pessoas que não são dignas.
Também são eles privados dessa amizade tão bela e tão natural, por si
mesma tão desejável; e o seu coração não lhes faz compreender qual é a
natureza e a grandeza de tal sentimento. Cada um ama-se a si mesmo, não
para exigir prêmio da sua própria ternura, mas porque naturalmente a sua
própria pessoa lhe é cara. Se não existe alguma coisa de semelhante na
amizade, não se achará nunca um verdadeiro amigo; porque um amigo, é um
outro nós mesmos.
Se se vê nos animais aprisionados ou selvagens, habitantes do ar, da
terra ou das águas, primeiro amarem-se a si mesmos (porque este
sentimento é inato em toda a criatura), em seguida desejar e procurar
seres da sua espécie, para se unir a eles (e, nessa procura mostram um
afã e um ardor que não deixa de ser semelhante ao nosso amor), quanto
mais essa dupla inclinação na natureza do homem que se ama a si próprio e
que busca um outro homem, cuja alma se confunde de tal modo com a sua
que de duas não faça mais de que uma.
Marcus Cícero, in 'Diálogo sobre a Amizade'
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