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terça-feira, 26 de março de 2013

O nome da rosa - Umberto Eco

Mais uma florada da roseira. fotos Hercilia.

No mês de fevereiro terminei a releitura de "O nome da rosa". Não sei porque mas não foi uma releitura fácil: não havia percebido que se falava tanto em religião e seus conceitos. 
Quando o li pela primeira vez, não havia ainda assistido ao filme exaustivamente (tanto que não me lembrava de que o final era muito diferente - triste). 
Por isso, da primeira vez que li o livro devia estar mais interessada na trama e não percebi todo aquele discurso teológico.
Nesta edição há uma introdução maravilhosa, onde ocorre uma análise narrativa do livro, de como e porque ter sido escrito.
O autor da introdução, David Lodge, descreve que o livro foi escrito para três categorias de leitores: primeiro para os que apreciam a estrutura de ficção policial clássica, uma história de crime e investigação, com inspiração explícita em Sherlock Holmes, até na estrutura utilizada por Conan Doyle onde Adson/Watson narra a história vivenciada; a segunda categoria é para quem é apaixonado pelo debates de idéias e procura estabelecer conexões com o presente; a terceira categoria "se dará conta de que este texto é um tecido de outros textos, um 'quem matou' de citações, um livro feito de livros".
Descobri que Jorge de Burgos, o bibliotecário, foi criado para homenagear Jorge Luis Borges (que também havia sido bibliotecário).


E que o título "O nome da Rosa" não era uma referência à única personagem feminina da trama, mas sim uma referência à Roma (um equívoco de copista). 



Neste releitura o livro ficou um tanto cansativo, porque percebi mais as idéias, as crises que a Igreja vinha passando com as diversas ordens. 
E depois em março (2013), um papa franciscano é eleito. Como não fazer analogias e lembrar como esta ordem sofreu para impor seus princípios.

"Sobram mais duas virtudes teologais. A esperança de que o possível exista. E a caridade, para com quem acreditou de boa fé que o possível existisse." (p. 378)

Eco, Humberto - O nome da rosa; Editora Record, Rio de Janeiro, 2011

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Álvaro de Campos/ Fernando Pessoa

Três Sonetos

Quando olho para mim não me percebo,
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
(...)

Terceira rosa, presente da Claúdia
Foto: Hercilia Prandi/ fev 2013

Nem nunca propriamente, reparei
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? serei

Mesma rosa no dia seguinte - foto noturna
foto: Hercilia
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
(...)

Terceiro dia
foto: Hercilia
Isso de sensações só vale a pena
Se a gente se não põe a olhar pra elas.
Nenhum delas em mim é serena...

Outro ângulo
foto: Hercilia
De resto, nada em mim é certo e está
De acordo comigo próprio. As horas belas
São as dos outros, ou as que não há.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Minha biblioteca encaixotada


Assim como na crônica de Joca Reiners Terron eu também já mudei, e muito... 13 vezes! Em algumas casas fiquei mais tempo, de outras, saí logo. Houve uma casa, a minha preferida, passei a minha infância e adolescência, foram 16 anos naquela casa - por isso ser a minha favorita - era pequena, mas tinha um quintal enorme, o que deu margem para a minha família de acumuladores condições de guardar tudo o que aparecia (tinha um barracão bem no meio do quintal). Meu pai era militar e nunca entendi direito porque a família não mudava com tanta frequência como os vizinhos. Acredito que a família numerosa do jeito que era não estimulava ao quartel financiar nossa mudança... e fomos ficando, ficando e os vizinhos e amigos partiam de dois em dois anos.

Em decorrência eu nutria um desejo de mudar para qualquer lugar e vivenciar esta experiência... Por outro lado virei um ser antisocial porque cansei de ver os amigos indo embora e perder o contato com eles - ninguém gostava de escrever cartas. Mais tarde me arrependi muito do desejo de mudança, porque quando ela finalmente aconteceu não parou mais.

O lado bom das mudanças é que quando os problemas com vizinhos aparecem é só procurar outro lugar e não ficar amargando vizinhança infeliz!

A primeira vez que fui responsável por uma mudança foi logo após ao falecimento da minha mãe, sem experiência nenhuma, com medo de dar ordens demais e me impor foi um caos, tinha tanta, tanta coisa, ninguém quis se desfazer de nada... a mudança começou às 9 horas e terminou na madrugada do dia seguinte, quase uma hora, numa casa muito menor... ficamos dois anos na casa, e muitas caixas nem foram desmontadas. Um dia o vizinho apareceu e avisou de que o caminhão da prefeitura iria passar na rua e se eu quisesse me desfazer de algo era só deixar na calçada. Foi a deixa, me desfiz de muita bugiganga, tudo que era inútil ou não era mais utilizado foi para o lixo... achamos vários camundongos. Foi uma limpeza que me fez bem, acredito que a partir deste momento comecei a pensar melhor em até que ponto valia à pena guardar tanto lixo e comecei a jogar mais coisas fora. A mudança seguinte começou às 11 h e terminou às 21 h. e as seguintes foram mais rápidas.

Então aprendi a me desfazer de bens... aprendi que móveis menores são mais fáceis de carregar e não sofrem com o desmonte, livros de que não gostei de ler vão para a biblioteca ou para o sebo, e que em vez de colocá-los em caixas que ficam pesadas, melhor colocá-los em sacos de lixo de 20 litros, é só tomar cuidado na hora de tirar a fita adesiva que o saco será reaproveitado (da última vez fiquei um ano e meio sem precisar comprá-los), só as plantas continuam sendo um problema... planto tudo o que é semente que me aparece, elas crescem e não consigo me desfazer, porque são únicas... e esta minha briga com a destruição da natureza fortalece ainda mais a minha necessidade de tê-las...

Atualmente estou há cinco anos nesta casa... e há uma "necessidade" de mudança, mais não estou desejando muito isto. Uma casa com um grande quintal - adquiri muitos mais vasos; comprei mais livros e faz tempo que não me desfaço dos outros... será uma mudança difícil! 

Agora é esperar o bichinho da limpeza me atacar para fazer aquela faxina!

Uma biblioteca encaixotada



Por Joca Reiners Terron
All my worldly possessions...
1.
Escrevo em meio ao caos de uma mudança de endereço. Será minha vigésima quarta casa em 45 anos. Ao contrário do que possa parecer, odeio me mudar. Se minha biografia fosse um mapa, teria esses tantos pontos assinalados rodeados por um oceano de amnésia. Viver pouco tempo num lugar não permite estabelecer relações necessárias para que o afeto construa suas pontes, assim o passado cai facilmente no esquecimento, deixando espaço para a imaginação trabalhar. Não tenho amigos de infância, portanto não existe ninguém que possa me desmentir.
2.
O primeiro trauma da mudança está relacionado aos livros. Descobri que na casa de meus pais havia uma biblioteca somente quando foi encaixotada. A falta dela me fez descobri-la, entender que dependia dos livros. O trauma se deve ao fato de os livros serem os primeiros objetos da casa a serem encaixotados e os últimos a serem desencaixotados. Uma biblioteca encaixotada. Para mim não existe outra imagem que melhor defina a melancolia.
3.
Existe, sim. É a imagem de uma caixa de livros em chamas num terreno baldio e eu sentado em cima de um muro, observando-a. Minha mãe ateou fogo aos livros. Ela está mais calma agora, e olha impassível o bruxulear do fogo. Também olha de rabo de olho para mim, talvez arrependida, mas não devolvo o olhar. Minha atenção está inteiramente voltada aos livros em chamas. Ouço os pedidos de socorro de Marco Vinício e Lígia, protagonistas de Quo Vadis, o romance de Henryk Sienkiewicz que estava na caixa. Ambos sobreviveram ao incêndio de Roma causado por Nero, porém não à TPM de minha mãe.
4.
Melhor esquecer esse assunto.
5.
Desta vez optei por encaixotar eu mesmo os livros. A desculpa é limpá-los e fazer uma triagem para descarte, a verdade é que os custos dessas mudanças completas em que carregadores vêm e embalam tudo em segundos estão altos demais, bastante além de meu orçamento. Me demoro a reler passagens de romances. Ganho coragem e jogo fora toda uma coleção de suplementos culturais de jornais. Recebo aplausos pelo desapego. Antes de fechar a porta, dou uma última paquerada na pilha de papéis fedorentos no corredor. A luz automática apaga, encosto a porta e a abro de novo. Retiro um exemplar do Babelia. Leio um trecho de entrevista com um autor que admiro. Volto para dentro de casa com o suplemento dobrado sob o braço. Uma voz resgatada do incêndio. De cinco em cinco minutos espio através do olho mágico da porta para ver se alguém levou os jornais.
6.
Lembro de minha infelicidade ao não encontrar um livro qualquer de que gostava ao chegar num novo destino. Acontecia com frequência, e existia algo de misterioso no sumiço daqueles livros amados. Teriam voltado ao lugar onde nasceram, a Oz, a Reykjavyk, a Budapeste? Iguais aos gatos, não admitiam abandonar sua antiga casa, extraviando-se no caminho? Carregadores letrados abririam caixas de livros e os leriam na estrada, confortavelmente embalados pelo sacudir da caçamba do caminhão? Seria possível que existissem caixas de livros que contivessem passagens a outras dimensões? Eu era ingênuo, não suspeitava das artimanhas perpretadas por meu Nero particular. Porém é melhor não falar mais nisso.
7.
Mudanças frequentes como as que vivi terminam por ocasionar limpeza excessiva na memória de um lar, são sempre boa desculpa para se desfazer de coisas velhas. Viver algum tempo num mesmo endereço, hoje eu sei, é um exercício de acúmulo na mesma medida em que mudar é exercitar o desapego. O que não explica muita coisa, pois já sou um sujeito bastante desapegado. Tenho duas calças, dois pares e meio de sapatos (perdi um pé não sei bem onde, suponho que no meio do caminho do nada para lugar nenhum) e cinco mil livros, todos encaixotados. Mas não por muito tempo.

* * * * *

Joca Reiners Terron é escritor. Publicou Curva de rio sujo e Sonho interrompido por guilhotina, entre outros. Pela Companhia das Letras, lançou seu último romance, Do fundo do poço se vê a lua, e relançou seu primeiro, Não há nada lá. Ele contribui para o blog com uma coluna quinzenal.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

sábado, 26 de janeiro de 2013

Nova York - Will Eisner

Um livro que fala não só de Nova York mas de todas as grandes cidades... mas é um livro muito triste... há tanta tristeza e solidão, violência e falta de amor ao próximo na cidade de Eisner... falta  esperança ao ser humano... que enquanto estiver preso entre as prédios será sempre infeliz e miserável.


Eisner faz uma homenagem a São Paulo retratando os assaltos nos semáforos. Mas em São Paulo (ou no Brasil) não sei se somos tão infelizes assim... há parques, há músicas, há espetáculos, há famílias que ainda se reúnem, há sol... apesar de estarmos caminhando para a sordidez do comportamento humano, ainda somos um povo que ajuda, que está sempre em movimento para causas pró humanas, ou pró animais, ou pró natureza... mas somos um povo de engajadores. 
Bem... eu não não moro na cidade de São Paulo, em meio aos prédios para saber como exatamente é... mas o centro de Osasco está se transformando, cada vez mais prédios, um ao lado do outro... mas o colorido ainda se mantêm, e eu ainda não percebo tanta infelicidade assim! 

A Velha e a Flor

Elias Sperandio (marido da Gabriela) escreveu um pequeno livro, eu diria que seria possível lê-lo enquanto se espera para ser atendida em algum consultório... mas do jeito que o tempo de espera anda é sempre bom levar um livro das Crônicas de Gelo e Fogo..., mas voltando à Velha e a Flor é um livro muito gostoso de ler, um suspense com final surpreendente! Eu recomendo!



Noite de autógrafo com Gabriela, Elias, Rosário e Eu. 1º de novembro de 2012




sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar

Em dezembro terminei a trilogia Millenium: "A menina que brincava com fogo" e "A rainha do castelo de ar". Escrever não é um negócio para todos, mas Stieg Larsson sabe escrever... sabe prender a atenção do início ao fim do livro... três livros, e ele conseguiu esta façanha (o terceiro volume foi menos emocionante, mas não deixa de ter seu mérito)... queria muito ter este talento: criar tramas, suspenses, enveredar por caminhos surpreendentes e deixar a todos surpresos!


No livro "A menina que brincava com fogo" ainda apresenta os mesmos personagens do primeiro livro: Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander, a história começa dois anos depois dos eventos do livro anterior. Lisbeth está rica, não fala com Mikael, mas a vida dos dois irão se cruzar novamente. Acusada de três homicídios, Mikael faz de tudo para provar sua inocência e parte à caça do assassino. Neste livro vários aspectos da personalidade de Lisbeth são explicados, deixando claro o porque do estranho comportamento, às vezes agressivos, arredio, a repulsa para lidar com a polícia ou qualquer agente que pudesse ajudar contra as violações que ela sofre ou sofreu. O passado se desvenda!


O terceiro livro "A rainha do castelo de ar" é uma sequência direta do segundo. É a continuação da história anterior onde todas as mentiras são reveladas, todos os complôs para esconder a verdade veem à tona o que significa que muitas cabeças vão rolar se os eventos tornarem-se públicos. Então inúmeras tentativas de que isto não ocorra acontecem, e se não fosse a perspicácia de Mikael, junto com os amigos que Lisbeth nem imaginava que tinha, estas mentiras a levariam definitivamente a ser internada como doente mental.
Livros surpreendentes! Um vislumbre da sociedade sueca,  o que nos leva a uma inevitável comparação com a nossa...  

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

The Killing

É uma série norte americana baseada na Forbrydelsen (Dinamarca), que segundo críticas é maravilhosa; a adaptação não é tão esplêndida assim, mas é boa. Desejo muito ver a versão original, mas ainda não consegui. Sobre a série: ambientada em Seatle - eu não sabia que chovia tanto naquele lugar, mas do que na floresta Amazônica... chove o tempo todo, e ainda não descobri se é um artifício para representar o lúgubre, a tristeza... mas chove muito, os personagens nem usam guarda-chuva, as roupas já são impermeáveis.


Sarah Linden é uma detetive com muitos traumas, abandonada pela mãe quando criança, viveu em lares adotivos até a vida adulta, não teve uma adolescência fácil, fugia constantemente, e esta história pessoal faz com que abrace alguns casos de forma dramática, o que a leva a um inconsciente processo autodestrutivo: não come, não dorme, não cuida do filho (e já quase perdeu a guarda dele), perdeu o noivo e o casamento... Tem como parceiro Stephen Holder, um policial tentando recuperar-se do vício de drogas.
No desenrolar da história ela segue tantos caminhos que prejudicam outros (um professor e o parceiro serem espancados quase à morte, um candidato a prefeito ficar paraplégico, levar um pai à prisão porque acreditou estar vingando a morte da filha, um rapaz ao suicídio...) que é incrível ela não ter largado tudo para se casar na Califórnia com o noivo lindo... 
No início a série até lembra Without a trace, quando se descobre segredos de uma pessoa desaparecida... os segredos fizem parte de nós seres humanos - ninguém conhece ninguém, isto é verdade, sempre há um lado que fica escondido de um determinado público. Mostramos aquilo que queremos mostrar, que queremos que os outros conheçam, que não choque, principalmente quando há uma divergência do padrão normal da sociedade e sabemos que seremos criticados... pela frente ou pelas costas! Estamos sempre usando máscaras!
A princípio Rosie mostrou-se uma garota com péssimos segredos, ligada à prostituição virtual, e... porque ninguém conseguia entender como ela foi parar morta naquele lugar. Como e por quê??? eram as questões de Sarah, que aliás teve que lidar com segredos de todos os envolvidos... e se alguns destes tivessem sido revelados espontaneamente, tantas tragédias teriam sido evitadas (mas aí a trama não teria graça)... como o caso do professor que passou a ser visto como terrorista e molestador de menores quando na realidade salvava crianças de práticas abusivas e arcaicas - se tivesse revelado (mas não seria compreendido) não teria sido sequestrado e espancado quase à morte; ou o caso do político que escondeu a tentativa de suicídio, porque o público não compreenderia, seria considerado um covarde, consequência: foi preso por assassinato e levou tiros de um amigo da família da vítima, desencadeando neste uma patologia psicopata, levando-o antes a matar a mãe e depois ao suicídio. Tantos segredos e tantas tentativas de acobertar o crime levaram à desintegração de famílias (a da própria Sarah), destruição de caráter de vários personagens... para no final descobrir que Rosie foi vítima por estar no lugar errado na hora errada... ela só queria descobrir o mundo, viajar, descobrir a felicidade...
E o pior, principalmente para Sarah, foi descobrir o assassino... ser morta por que alguém também queria ser feliz, ser morta por engano, por quem menos se esperava... trazendo mais tragédias para a família que passa a ter como único objetivo recomeçar a viver. 
No final da segunda temporada Sarah sai do carro ao recusar responder a uma chamada... quero acreditar que ela foi resgatar o filho, que terminou indo morar com o pai, por segurança, e depois embarcou para a Califórnia para casar com o noivo bonitão!!!