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terça-feira, 28 de julho de 2015

Desejo a vocês...

Desejo a vocês...
Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão


Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor.
(Carlos Drummond de Andrade)

Pedaços... (III)

Gostaria de te desejar tantas coisas.
Mas nada seria suficiente.
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes.


E que eles possam te mover a cada minuto, 
ao rumo da sua felicidade!
(Carlos Drummond de Andrade)

Pedaços... (II)

Cada pessoa que passa em nossa vida, 
passa sozinha, 
porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.


Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha,
mas não vai sozinha e nem nos deixará só, 
porque leva um pouco de nós e deixa um pouco de si.


Há os que levam muito e deixam pouco, 
há os que levam pouco e deixam muito.
Essa é a mais bela responsabilidade da nossa vida e a prova de que não nos encontramos por acaso.


Para viver feliz é preciso muito pouco...
um olhar carinhoso...
um sorriso...
um beijo demorado...
uma brincadeira sadia...


Fechei os olhos e pedi um favor ao vento:
leve tudo que for desnecessário.
Ando cansada de bagagens pesadas.
Daqui para frente apenas o que couber no bolso e no coração.
(Cora Coralina)


Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem cada um como é.
(Fernando Pessoa)


Comece fazendo o que é necessário,
depois o que é possível,
e de repente você estará fazendo o impossível.
(São Francisco de Assis)


Não ande atrás de mim,
talvez eu não queira liderar.
Não ande na minha frente,
talvez eu não queira segui-lo.
Ande ao meu lado,
para podermos caminhar juntos.
(Provérbio Ute)

Pedaços... (I)

Seja você a mudança que tanto procura nos outros.
As pessoas não mudam com cobranças, mudam com exemplos.


A alma sempre sabe o que fazer para se curar. 
O desafio é silenciar a mente.
(Caroline Myss)


A pergunta que todos nós devíamos fazer é: o que foi que fiz se nada mudou?
Deveríamos viver mais incomodados.
O amanhã não existirá se não mudarmos o hoje.
(José Saramago)


Existe no silêncio tão profunda sabedoria que às vezes ele transforma-se na mais perfeita resposta.
(Fernanda Pessoa)

segunda-feira, 13 de julho de 2015

Eu sei, mas não devia

Eu sei, mas não devia

Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti
nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant'Anna. 

O texto acima foi extraído do livro "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

Só se Pode Ser Feliz Simplificando

Só se Pode Ser Feliz Simplificando

Só se pode ser feliz simplificando, simplificando sempre, arrancando, diminuindo, esmagando, reduzindo; e a inteligência cria em volta de nós um mar imenso de ondas, de espumas, de destroços, no meio do qual somos depois o náufrago que se revolta, que se debate em vão, que não quer desaparecer sem estreitar de encontro ao peito qualquer coisa que anda longe: raio de sol em reflexo de estrelas. E todos os astros moram lá no alto.
Florbela Espanca, in "Diário do Último Ano"

Saber Terminar uma Amizade Indesejável


Saber Terminar uma Amizade Indesejável

   Sucede, também, como por calamidade, que algumas vezes é necessário romper uma amizade: porque passo agora das amizades dos sábios às ligações vulgares. Muitas vezes quando os vícios se revelam num homem, os seus amigos são as suas vítimas como todos os outros: contudo é sobre eles que recai a vergonha. É preciso, pois, desligar-se de tais amizades —, afrouxando o laço pouco a pouco e, como ouvi dizer a Catão, é necessário descoser antes que despedaçar, a menos que se não haja produzido um escândalo de tal modo intolerável, que não fosse nem justo nem honesto, nem mesmo possível, deixar de romper imediatamente. 

Mas se o carácter e os gostos vierem a mudar, o que acontece muitas vezes; se algum dissentimento político separar dois amigos (não falo mais, repito-o, das amizades dos sábios, mas das afeições vulgares), é preciso tomar cuidado em, desfazendo a amizade, não a substituir logo pelo ódio. Nada mais vergonhoso, com efeito, que estar em guerra com aquele que se amou por muito tempo. 

(...) Apliquemo-nos, pois, antes de tudo, em afastar toda a causa de ruptura: se contudo, acontecer alguma, que a amizade pareça antes extinta do que estrangulada. Temamos sobretudo que ela não se transforme em ódio violento, que traz sempre consigo as querelas, as injúrias, os ultrajes. Por nós, suportemos esses ultrajes quanto forem suportáveis e prestemos esta homenagem a uma antiga amizade, de modo que a culpa caiba a quem os faz e não àquele que os sofre. 
Mas o único meio de evitar e prevenir todos os aborrecimentos é não dar a nossa afeição nem muito depressa, nem a pessoas que não são dignas. 


São dignos da nossa amizade aqueles que trazem consigo os meios de se fazer amar. Homens raros! De resto, tudo que é bom é raro e nada é mais difícil do que achar alguma coisa que seja em seu gênero perfeita em tudo. Mas a maior parte dos homens não conhece nada de bom nas coisas humanas senão o que lhes interessa e tratam seus amigos como aos animais, estimando mais aqueles de quem esperam recolher mais proveito. 

Também são eles privados dessa amizade tão bela e tão natural, por si mesma tão desejável; e o seu coração não lhes faz compreender qual é a natureza e a grandeza de tal sentimento. Cada um ama-se a si mesmo, não para exigir prêmio da sua própria ternura, mas porque naturalmente a sua própria pessoa lhe é cara. Se não existe alguma coisa de semelhante na amizade, não se achará nunca um verdadeiro amigo; porque um amigo, é um outro nós mesmos. 


Se se vê nos animais aprisionados ou selvagens, habitantes do ar, da terra ou das águas, primeiro amarem-se a si mesmos (porque este sentimento é inato em toda a criatura), em seguida desejar e procurar seres da sua espécie, para se unir a eles (e, nessa procura mostram um afã e um ardor que não deixa de ser semelhante ao nosso amor), quanto mais essa dupla inclinação na natureza do homem que se ama a si próprio e que busca um outro homem, cuja alma se confunde de tal modo com a sua que de duas não faça mais de que uma. 

Marcus Cícero, in 'Diálogo sobre a Amizade'

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Tantor

Dia 12 de fevereiro perdi o Tantor... o único gato que chegou como presente de aniversário. Havia ficado tanto tempo dentro de uma gaiola que mal conseguia se equilibrar nas próprias pernas... levou um bom tempo para conseguir andar sem cair, devia ter uns 3 meses e era redondinho como um elefante, por isso o nome de Tantor - o elefante do Tarzan (da Disney).


Eu sempre quis ter um siamês... com aqueles olhos azuis do céu de inverno, limpos... os olhos do Tantor tinham manchas provocadas, talvez, por lesões de espinhos de plantas... nunca soube ao certo, nem o veterinário. O primeiro siamês que consegui comprei, foi a Fizzie, na loja da dona Maria, havia uma ninhada grande que foi se desfazendo com o tempo. No final só ficou o Tantor, ninguém queria, estava planejando comprar quando o ganhei.


 Logo aprendeu as artes e manias que o acompanhariam pela vida:


Abrir portas, não podia ver uma porta fechada que já tentava abrir, e conseguia mesmo já magrinho e sem muito peso...
Quando eu chegava em casa com ração ele já rasgava o saco com aqueles dentões afiados... com ou sem comida no potinho...
Nenhum gato herdou estas capacidades... esperavam que ele fizesse tudo sozinho! 


 Brigava sempre com a irmã - a Fizzie... uma perseguição sem fim, somente ela era a vítima... inexplicável!


 Teve seus momentos fujões... principalmente na casa da dona Celeste, fugia para o quintal com bosque e desaparecia por horas para meu desespero. Uma vez pulou um vão enorme da janela para o telhado vizinho, fazendo com que mantivéssemos todas as janelas sempre fechadas. Na casa da rua Direita fugia para o jardim da frente para tentar pegar os passarinhos... adorava tentar pegar gatos estranhos e persegui-los, mas somente quando eu não conseguia impedir. Uma vez pegou a porta destrancada, abriu-a e passou a noite toda fora, só percebi na manhã seguinte - lá estava ele esperando que eu a abrisse na maior cara de pau para o café da manhã!


À noite, dormia sobre minhas pernas quando ficava assistindo televisão, então... quando eu levantava me seguia miando sem parar cruzando minhas pernas até pegá-lo no colo e dar comida... Um malabarismo para não cair em cima dele, com risco de esmagá-lo...


Também adorava dormir sobre a televisão!

E também se esparramar sobre a gaiola da Snow quando ela era preparada para a noite... esquecia-se por lá... 


Todo momento em que tirava uma foto de um trabalho concluído ele corria para fazer parte da foto.


Adorava "amassar" trabalhos com lã, principalmente os que ainda estavam em execução. Ele se foi, mas, vários fios ficaram desfiados!


Nesta casa, com sacada, ele estava sempre dormindo no alpendre me esperando chegar; quando ouvia o barulho das chaves corria para me esperar subir as escadas ou ia direto para o portão dos fundos para me receber - sempre miando...


Tinha seus momentos carinhosos...


Mas o que ele gostava mesmo era de dormir agarradinho com outros gatos, principalmente os da geração dele... Felícia, Amora, Kiki, Naná, Pepe e Fox...

Amora, Tantor, Felícia, Fox e Pepe.
Todo inverno era assim...
Melhor amigo do Fox - brincavam o tempo todo, no segundo semestre do ano passado Tantor estava emagrecendo muito e um dos sintomas de que não estava bem era o fato de não estar mais brincando-brigando com o Fox, fez uma limpeza de tártaro que podia ser um dos motivos do emagrecimento - a gengivite, e depois tudo voltou ao normal: as brincadeiras recomeçaram...


Amora, Tantor, Naná
Siamês: único gato que quando começa a passar mal faz um barulho avisando... possibilitando a minha corrida para levá-lo a um lugar que não faria tanta sujeira...
O melhor gato para se dar remédio... só abrir a boca dele e colocar o comprimido. Não gostava, é claro, sabia quando era a hora e corria para se esconder, mas nada como o cheiro da comida para atraí-lo e lá ia comprimido goela abaixo...


15 anos de fiel companhia!


1999/2015

domingo, 1 de fevereiro de 2015

O bom de 2014

Já estamos em fevereiro e somente agora farei um balanço de 2014, que não foi um ano particularmente bom. Perdi a Naná, assim, de repente. Tive péssimos alunos... sem perspectiva de futuro, cabeças vazias... almas vazias... Não li livros na quantidade que desejava... preocupações, desgostos e decepções demais... Uma luta constante para manter a saúde dos meus animais... 
Mas houve coisas boas... pequenas descobertas que trazem pequenas doses de felicidade... descobri George R.R. Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo, escritor surpreendente... e também descobri Caro Emerald, cantora holandesa, magnífica!
Minha vida pode continuar um caos, mas estes dois iluminam meu caminho, um com a imaginação e a outra com a voz!



Por que gosto das séries inglesas...

Recentemente terminei de assistir a "The Fall".


É uma série inglesa, e como a maioria é um excelente trabalho. Gosto das séries inglesas. Primeiro porque é gostoso ouvir um sotaque diferente, acostumada como estou com o inglês norte-americano (sim, eu prefiro ler legendas). Elas são curtas, normalmente as temporadas tem começo, meio e fim... podem até se prolongar para uma segunda temporada, mas fios não ficam soltos. Eles não amenizam situações, há uma certa "crueldade", eles não tem dó de matar. Quando uma personagem está escalada para morrer as preliminares são curtas, necessárias somente para apresentá-la, mas os ingleses apresentam mais, contam sua história, seus sonhos, fazem com que gostemos da vítima e consequentemente torcemos pela sua salvação... isto não acontece, ela morre, cruelmente... e ficamos desolados.
Há outros aspectos nas séries ingleses (e europeias também), eles são mais realistas, não importa se não há glamour, mas apresentam os fatos como são. Numa cena de crime a equipe CSI não chega com o cabelo loiro ou cacheado balançando para contaminar a cena, nem entra com a roupa que chegou. Uma equipe CSI europeia utiliza macacões brancos, cabelos, olhos, bocas, pés - tudo devidamente coberto para não contaminar a cena do crime e em hipótese alguma outra pessoa entra na cena sem estar devidamente coberto. Nunca! Áreas enormes são isoladas e varridas com pente fino. Os ingleses não estão preocupados com moral, há sexo, cigarros (qualquer um fuma do mocinho ao bandido), violência...
A série tem como protagonista Gillian Anderson (ex Dana Scully - Arquivo X) irreconhecível, literalmente uma alpha. Assustador! E já está na segunda temporada. Pode haver uma terceira? Pode, há um gancho para a continuação... mas também pode terminar com um final digno!